Era (praticamente) véspera de carnaval quando comecei a escrever.
(Ontem) No dia anterior, eu decidi meditar com um abafador em concha que comprei por uma grana considerável, da melhor marca, só não o melhor modelo.
Conforme foi acalmando a minha mente, minha mente foi despertando para a percepção da escuta; e os barulhos sutis do silêncio me chamaram a atenção. Eu tinha saído da roça em 2024 e como estava morando em locais ruidosos, não tinha ainda conseguido ter esse tipo de silêncio (ou de som) desde então.
Quis "me vestir" com o sentimento de ser "a pessoa que escuta". Respirando...
...mas , como na aula de sintaxe, surgiu a pergunta: "a pessoa que 'escuta' o quê?". A resposta obvia?: "O 'som'". Mas não basta escutar o som. Se uma pessoa fala com a gente, conosco, escutar o timbre da voz, a melodia da entonação, volume, tom, ritmo, sílabas, fonemas, fone, gestos, expressões faciais... Nenhuma dessas características, em si, será o suficiente pra dizer que estamos escutando bem. Então... ...posso ser "a [pessoa] que [escuta] o [som] e o [sentido]". Pessoa que escuta som e sentido?... ...mas "sentido" se relaciona com "sentir", não sensações físicas. Talvez palavra melhor seja "sentimento". Talvez emoções? Mas o que é sentimento mesmo?
Se não me engano foi em um vídeo da Ediane Ribeiro que eu ouvi uma definição marcante, que deixa a distinção entre sentimento e emoção inconfundível, por conta do que ela disse sobre os sentimentos.
Sobre emoções eu já sabia um tanto: são respostas que nos mobilizam em reações primordiais. A Wikipedia, citando Elvira Cuesta, lista as emoções mais básicas como apenas 3: positivo, negativo, neutro, o que me gerou um incômodo com serem adjetivos flexionados no masculino. Prefiro usar nomes: atração, repulsão, indiferença. Digo, teria que ser uma indiferença sincera em vez da "indiferença" que é usada pra falar ironicamente de "desprezo". Enfim, talvez atração ou desejo, repulsa ou retração, gosto e desgosto acabam sendo bons exemplos de emoção, junto com os outros divertidamentes: tristeza, alegria, raiva, medo, nojo, tédio, ansiedade, vergonha, coragem...
Trecho de "6 emoções básicas segundo a psicologia":
"Segundo a psicologia de Ekman, existem 6 emoções básicas do ser humano. No entanto, graças às novas tecnologias de neurociência, sabe-se que o nojo e a ira procedem de uma emoção em comum e que a surpresa e o medo compartilham uma expressão facial base. Por isso, podemos afirmar que, na verdade, existem 4 emoções básicas."
Embora se defina a partir de pensamentos que acontecem rápido, muito mais rápido que as próprias emoções, talvez exista nelas algo de instintivo. São reações a estímulos internos e/ou externos, que produzem a sensação abstrata, subjetiva, mas também alterações neurobiológicas específicas.
Já o sentimento, que é o foco, a gente vê que se parece com emoções, mas a Ediane classificou como uma sensação inserida em um contexto. Ao contrário das emoções, que são genéricas, os sentimentos possuem história ou estória. A "rejeição", a "frustração", a "valorização, o "empoderamento", são bons exemplos de sentimento, pois não existem sem uma situação, ou várias, mesmo que imaginada. Não? Cada um desses sentimentos possui uma narrativa específica, narrada em primeira pessoa.
Voltemos então à minha narrativa: lá estava eu meditando nos pequenos chiados, zumbidos, assopros, que passam a se parecer mais com o som de uma cachoeira. Imagino água de cachoeira caindo e me lavando, me atravessando, mas não passa muito tempo antes que o som mude para borbulhos e gorgulejos, aquele som que você escuta quando mergulha em água corrente. Daí que esses pensamentos começaram a fluir como água, aquelas primeiras perguntas e respostas que eu refinei pra não correr o risco de falar bobagem.
Toda essa água não era só um monte de som, nem signos com significados estáticos, nem apenas reações neurobiológicas. Eu poderia então escutar meu sentimento, ou melhor, meus inúmeros sentimentos. Nada melhor que ouvir as minhas próprias narrativas, pra tratar o transtorno depressivo ansioso que tem habitado em mim, aliás, qualquer psicose, de acordo com o freguês.
Pra eu escutar a mim mesma eu precisava escutar sentimentos. Mas qual sentimento eu escutaria, já que me pareceu lógico que eu escutasse um por vez? Se eu olhasse pra uma célula da minha subjetividade, escutasse sua história INFELIZ e olhasse então para ela, eu teria algo pra responder? Eu teria alguma antítese integradora pra colocar em diálogo com as fragmentações da minha personalidade?
Percebi que é importante valorizar os próprios sentimentos, com suas narrativas, independente de os fatos serem "reais", já que para o cérebro não existe distinção entre um fato imaginado ou vivido externamente. Já que pra quem sente uma dor, tanto faz que a sua justificativa seja "procedente", essa pessoa quer ser ouvida, acolhida, valorizada, válida, amada, amparada, orientada. Essa pessoa quer se sentir em comunhão. Tanto faz se essa comunhão é com uma pessoa externa ou com uma outra parte de si. Levar bronca de si , ser criticada, silenciada por si, dói igual. Como a nossa mãe de carne e osso nos afeta tanto quanto a mãe da nossa cabeça, como se fosse a mesma pessoa. Depois de ouvir toda narrativa de uma das minhas tristezas, que alegria curativa eu teria para oferecer? Eu lá sou feliz?
Apesar de todas as incontáveis crises de depressão e de ansiedade que tive nos últimos quatro anos, eu continuo tendo a mais completa convicção de que "eu sou uma pessoa feliz". Pode parecer ilusório ou superficial. Tipo, a pessoa me fala: depois de fazer dezenas de digressões sobre qual é o termo mais adequado pra usar em uma situação, você simplesmente pega um "feliz" e taca-le pau. Ok. Talvez uma palavra que melhora ou pelo menos complementa é "realizada".
Pensando na minha vida, independente das flutuações, quando o dia acaba e eu acabo tendo que sintetizar o que é minha vida, eu sinto que sim. Eu sou uma pessoa realizada. Sou grata pela minha trajetória, pelo meu propósito, pelos meus afetos, especialmente os que não são daqui (como eu também não sou daqui), os que não estão mais aqui, nesta dimensão, mas me amam, me acompanham e me guiam. Realizada e iniciada, por meio de uma história com presente, passado e futuro. Um sentimento!
O sentimento é o de uma felicidade de quem vive um "conto de fadas". Claro que a alemã trans tem como mito pessoal um "conto de fadas" e eu sei qual conto é esse que eu vivi para chegar ao "feliz para sempre", então por que às vezes me parece que eu vivo mesmo um "feliz nem sempre"? Me parece que o término com minha amada Julie seria uma prova de que meu feliz pra sempre não é verdadeiro, mas sim: eu fui tão feliz relacionalmente, de forma muito concreta em cinco dos meus 8 anos de relacionamento, que não existe nenhuma possibilidade de ser mentira, até por que: a razão da minha felicidade não era um príncipe ou princesa encantada, não era por ter uma alma gêmea. Não. Eu não sou nada gêmea da minha "ex(namorada)". Eu continuo amando ela e toda família e, tanto agora, como antes, temos muitas concordâncias e semelhanças, porém nossos genes não poderiam ser mais distintos: famílias nada familiares, tristezas e alegrias muito pouco familiares. A visão de mundo só era parecida na superfície e as contradições eram tão abundantes como poderiam ser e, sinceramente, que bom.
Uma coisa que quem conhece sabe é que eu e Julie crescemos muito; que a nossa cria, Amy, minha enteada que amo tanto, cresceu muito, literalmente em todos os aspectos. A maioria dos bons momentos (e a maioria dos "maus momentos") foram muito engrandecedores. Então não é questão de simplesmente ter botado todas as fichas no "amor romântico", pois houve três grandes divisores de água na minha história que foram fundamentais na minha caminhada:
- Encontrar a Ayahuasca pela primeira vez
- Mudar de cidade, de São Paulo para São José dos Campos
- Nomear minha configuração de gênero, sexualidade e performance
- Quem ama?
- Ama quem?