23 de fevereiro de 2026
ao mesmo tempo
21 de fevereiro de 2026
Ouvi e Senti Mito
Era (praticamente) véspera de carnaval quando comecei a escrever.
(Ontem) No dia anterior, eu decidi meditar com um abafador em concha que comprei por uma grana considerável, da melhor marca, só não o melhor modelo.
Conforme foi acalmando a minha mente, minha mente foi despertando para a percepção da escuta; e os barulhos sutis do silêncio me chamaram a atenção. Eu tinha saído da roça em 2024 e como estava morando em locais ruidosos, não tinha ainda conseguido ter esse tipo de silêncio (ou de som) desde então.
Quis "me vestir" com o sentimento de ser "a pessoa que escuta". Respirando...
...mas , como na aula de sintaxe, surgiu a pergunta: "a pessoa que 'escuta' o quê?". A resposta obvia?: "O 'som'". Mas não basta escutar o som. Se uma pessoa fala com a gente, conosco, escutar o timbre da voz, a melodia da entonação, volume, tom, ritmo, sílabas, fonemas, fone, gestos, expressões faciais... Nenhuma dessas características, em si, será o suficiente pra dizer que estamos escutando bem. Então... ...posso ser "a [pessoa] que [escuta] o [som] e o [sentido]". Pessoa que escuta som e sentido?... ...mas "sentido" se relaciona com "sentir", não sensações físicas. Talvez palavra melhor seja "sentimento". Talvez emoções? Mas o que é sentimento mesmo?
Se não me engano foi em um vídeo da Ediane Ribeiro que eu ouvi uma definição marcante, que deixa a distinção entre sentimento e emoção inconfundível, por conta do que ela disse sobre os sentimentos.
Sobre emoções eu já sabia um tanto: são respostas que nos mobilizam em reações primordiais. A Wikipedia, citando Elvira Cuesta, lista as emoções mais básicas como apenas 3: positivo, negativo, neutro, o que me gerou um incômodo com serem adjetivos flexionados no masculino. Prefiro usar nomes: atração, repulsão, indiferença. Digo, teria que ser uma indiferença sincera em vez da "indiferença" que é usada pra falar ironicamente de "desprezo". Enfim, talvez atração ou desejo, repulsa ou retração, gosto e desgosto acabam sendo bons exemplos de emoção, junto com os outros divertidamentes: tristeza, alegria, raiva, medo, nojo, tédio, ansiedade, vergonha, coragem...
Trecho de "6 emoções básicas segundo a psicologia":
"Segundo a psicologia de Ekman, existem 6 emoções básicas do ser humano. No entanto, graças às novas tecnologias de neurociência, sabe-se que o nojo e a ira procedem de uma emoção em comum e que a surpresa e o medo compartilham uma expressão facial base. Por isso, podemos afirmar que, na verdade, existem 4 emoções básicas."
Embora se defina a partir de pensamentos que acontecem rápido, muito mais rápido que as próprias emoções, talvez exista nelas algo de instintivo. São reações a estímulos internos e/ou externos, que produzem a sensação abstrata, subjetiva, mas também alterações neurobiológicas específicas.
Já o sentimento, que é o foco, a gente vê que se parece com emoções, mas a Ediane classificou como uma sensação inserida em um contexto. Ao contrário das emoções, que são genéricas, os sentimentos possuem história ou estória. A "rejeição", a "frustração", a "valorização, o "empoderamento", são bons exemplos de sentimento, pois não existem sem uma situação, ou várias, mesmo que imaginada. Não? Cada um desses sentimentos possui uma narrativa específica, narrada em primeira pessoa.
Voltemos então à minha narrativa: lá estava eu meditando nos pequenos chiados, zumbidos, assopros, que passam a se parecer mais com o som de uma cachoeira. Imagino água de cachoeira caindo e me lavando, me atravessando, mas não passa muito tempo antes que o som mude para borbulhos e gorgulejos, aquele som que você escuta quando mergulha em água corrente. Daí que esses pensamentos começaram a fluir como água, aquelas primeiras perguntas e respostas que eu refinei pra não correr o risco de falar bobagem.
Toda essa água não era só um monte de som, nem signos com significados estáticos, nem apenas reações neurobiológicas. Eu poderia então escutar meu sentimento, ou melhor, meus inúmeros sentimentos. Nada melhor que ouvir as minhas próprias narrativas, pra tratar o transtorno depressivo ansioso que tem habitado em mim, aliás, qualquer psicose, de acordo com o freguês.
Pra eu escutar a mim mesma eu precisava escutar sentimentos. Mas qual sentimento eu escutaria, já que me pareceu lógico que eu escutasse um por vez? Se eu olhasse pra uma célula da minha subjetividade, escutasse sua história INFELIZ e olhasse então para ela, eu teria algo pra responder? Eu teria alguma antítese integradora pra colocar em diálogo com as fragmentações da minha personalidade?
Percebi que é importante valorizar os próprios sentimentos, com suas narrativas, independente de os fatos serem "reais", já que para o cérebro não existe distinção entre um fato imaginado ou vivido externamente. Já que pra quem sente uma dor, tanto faz que a sua justificativa seja "procedente", essa pessoa quer ser ouvida, acolhida, valorizada, válida, amada, amparada, orientada. Essa pessoa quer se sentir em comunhão. Tanto faz se essa comunhão é com uma pessoa externa ou com uma outra parte de si. Levar bronca de si , ser criticada, silenciada por si, dói igual. Como a nossa mãe de carne e osso nos afeta tanto quanto a mãe da nossa cabeça, como se fosse a mesma pessoa. Depois de ouvir toda narrativa de uma das minhas tristezas, que alegria curativa eu teria para oferecer? Eu lá sou feliz?
Apesar de todas as incontáveis crises de depressão e de ansiedade que tive nos últimos quatro anos, eu continuo tendo a mais completa convicção de que "eu sou uma pessoa feliz". Pode parecer ilusório ou superficial. Tipo, a pessoa me fala: depois de fazer dezenas de digressões sobre qual é o termo mais adequado pra usar em uma situação, você simplesmente pega um "feliz" e taca-le pau. Ok. Talvez uma palavra que melhora ou pelo menos complementa é "realizada".
Pensando na minha vida, independente das flutuações, quando o dia acaba e eu acabo tendo que sintetizar o que é minha vida, eu sinto que sim. Eu sou uma pessoa realizada. Sou grata pela minha trajetória, pelo meu propósito, pelos meus afetos, especialmente os que não são daqui (como eu também não sou daqui), os que não estão mais aqui, nesta dimensão, mas me amam, me acompanham e me guiam. Realizada e iniciada, por meio de uma história com presente, passado e futuro. Um sentimento!
O sentimento é o de uma felicidade de quem vive um "conto de fadas". Claro que a alemã trans tem como mito pessoal um "conto de fadas" e eu sei qual conto é esse que eu vivi para chegar ao "feliz para sempre", então por que às vezes me parece que eu vivo mesmo um "feliz nem sempre"? Me parece que o término com minha amada Julie seria uma prova de que meu feliz pra sempre não é verdadeiro, mas sim: eu fui tão feliz relacionalmente, de forma muito concreta em cinco dos meus 8 anos de relacionamento, que não existe nenhuma possibilidade de ser mentira, até por que: a razão da minha felicidade não era um príncipe ou princesa encantada, não era por ter uma alma gêmea. Não. Eu não sou nada gêmea da minha "ex(namorada)". Eu continuo amando ela e toda família e, tanto agora, como antes, temos muitas concordâncias e semelhanças, porém nossos genes não poderiam ser mais distintos: famílias nada familiares, tristezas e alegrias muito pouco familiares. A visão de mundo só era parecida na superfície e as contradições eram tão abundantes como poderiam ser e, sinceramente, que bom.
Uma coisa que quem conhece sabe é que eu e Julie crescemos muito; que a nossa cria, Amy, minha enteada que amo tanto, cresceu muito, literalmente em todos os aspectos. A maioria dos bons momentos (e a maioria dos "maus momentos") foram muito engrandecedores. Então não é questão de simplesmente ter botado todas as fichas no "amor romântico", pois houve três grandes divisores de água na minha história que foram fundamentais na minha caminhada:
- Encontrar a Ayahuasca pela primeira vez
- Mudar de cidade, de São Paulo para São José dos Campos
- Nomear minha configuração de gênero, sexualidade e performance
- Quem ama?
- Ama quem?
26 de janeiro de 2026
Mandi
Mandi
Refrão
Cintila u...
m'estrela
mistério
mito ancestral
Me fala
minh'alma
se liga a ti
Mandi
O espírito Lua Jjatsy ouviu dois anciãos que rogavam um lamento
Queriam ter uma criança que lhes ajudasse a plantar o alimento
Foi ele então procurar alguma alma boa que pudesse descer
Começa a história assim da criança encantada que estava pra nascer
Refrão
Enquanto sonhavam Djatsy disse de uma estrela, seu nome era Mandi
Seu rogo seria atendido, ela concordara em descer té aqui
“Mas cuidem dela muito bem, a sua alma é muito querida pra mim
A anciã então concebeu, o tempo até parou quando ela nasceu em fim
Refrão
Menina de cabelo loiro e a pele clara como a luz do luar
nasceu numa tribo em que, eram só os homens que podiam plantar
enquanto crescia feliz, entendia as plantas, falava aos animais
ligava-se a toda floresta, seres encantados e os elementais
Só entre a sua aldeia, só com o bicho gente
Achavam ela estranha, a viam diferente
Por ter os pais idosos e ser uma albina
E por ser a fílha única da sua família
queria ter direito de coletar sementes
ficava magoada mesmo sorrindo sempre
aprendeu o cultivo e semeou a terra
mas o povo ficou uma fera
Não podia ir na Natureza
E cresceu a sua tristeza
Um dia ela cansou e fugiu
E definhou na beira de um rio
Antes de ela partir
Chove Tupã! chove Tupã!
Fez um encanto surgir
Chove Tupã! chove Tupã!
Na chuva eis que germina
planta com raiz albina
Muita fartura houve ali
onde enterraram Mandi
Oca
Mandi
Oca
Mandi
Oca
Mandi
Cintila u...
m'estrela
11 de setembro de 2025
A Magia do Reino
Breve prólogo:
Este texto se relaciona com este outro, sobre Magia. Não acho que é obrigatório ler o outro nem quero subestimar a inteligência de quem me lê, mas acho interessante conhecer aquele pra apreciar melhor a brincadeira deste.
A Magia do Reino
Tudo começa com o rei
Rei (REX)
Substantivo masculino
designa pessoa (homem) que rege
Rainha (REGINA)
substantivo feminino
(nada a ver com ser uma esposa subalterna do Rei)
também teria o mesmo desígnio
de regente
Substantivo (ou adjetivo) de dois gêneros, comum de gênero ou ainda
Gênero Neutro
Pessoa
que rege
um reino
com um determinado LIMITE
De espaço:
Com fronteiras que vão até
determinados pontos
bordas
extremidades
De tempo
de um reinado
dinastia
tempo de vida
fase da vida
etapa
E funções ou aspectos:
Em alguns casos regente
só cuida de diplomacia
esfera pra além da qual
esta pessoa não é líder
em outras palavras
fora dessa esfera, o rei
está fora do seu reino
não manda em nada
Real é adjetivo
Comum de gênero
que designa algo relacionado
a Rei
Rainha
Regente
Reinado
ou Reino
Em inglês a palavra "rei" tem outro radical
O Rei
The King
Rainha
The Queen
e reino
The Kingdom
KING DOMain
Domain é domínio
que pode ser mais pejorativo
no campo semântico político
mas às vezes
pode significar um certo aspecto
um domínio
um campo
uma esfera
um "terreno"
uma "área"
um "reino"
outra palavra do inglês pra isso é "realm
Substantivo
Obs: No inglês, pra quem não sabe, nem todo substantivo tem gênero. O que não é masculino/feminino é neutro, como o pronome "they", que é ele/eles, no gênero neutro.
Realm
do mesmo radical de rei
é usada em contextos mais
metafóricos abstratos
como no caso de um universo
ficcional
no Reino da Fantasia
in the Fantasy Realm
Do Reino o Real
A qualidade "real"
significa
pertencente ao reino
reinado
de quem é regente
Os elfos são muito reais
no "mundo" da Terra Média
trilogia "O Senhor dos Anéis"
Os anjos são muito reais
no "Reino dos Céus"
Realidade
é substantivo feminino
(ou deveria ser neutro?)
uma substantivação
que abstrai
a "qualidade de ser real"
Se individualmente
regemos nosso corpo
e subjetividade
o que está nesse reino
real é, para nós
o que se relacione
à nossa dominância
Lembrando a icônica frase de Mufasa ao filhote Simba em "O rei Leão"
"Olhe Simba!
Tudo isso que o Sol toca
é o nosso Reino"
A mera percepção de algo novo já torna esse novo conhecimento uma parte de nosso reino individual Psicológico
Tudo que sabemos
e tudo que esquecemos que sabemos
(aquela parte escura cheia de ossos e hienas)
se relaciona com nosso reino subjetivo
é portanto
nossa realidade
Realidade
por se aplicar dentro de fronteiras
será sempre
relativa
a um reino
e não a uma noção universal
conforme ampliamos as fronteiras da nossa visão de mundo
muito mais coisas existem
o que ontem era real
que vá contra o que é real hoje
se torna irreal
ou falso
dentro de nosso reino
o que pode parecer
até óbvio, tão real
pra uma pessoa
pode ser inalcansável
absurdo, incompreensível
pra uma segunda
errado, falso, ofensivo
pra uma terceira
Embora nesta análise, o interesse vá mais pro reino das ideias, filosófico, simbólico, não sócio-histórico-cultural, a gente pode, por exemplo, ao adotar uma postura ética e decolonial, estabelecer que:
para os governantes
de um Estado-nação
regentes políticos
o "espaço" da subjetividade
individual
está "fora de seu reino"
Não cabe às funções
de um cargo institucional qualquer
policiar:
• pensamento
• sentimento
• desejo
• valor de opinião
• corpo físico
de qualquer pessoa
ou ser vivo
a não ser que
uma dessas
partes internas
ao ser expressa
exteriorizada
ameace concretamente
o espaço individual
de outrem
Em outras palavras, dá a clássica expressão:
NA MINHA VIDA MANDO EU
Em "O Rei Leão"
tudo onde o Sol toca
é o reino
e o protagonista
é o (Rei) leão
que não tem opção de não reinar.
Depor as hienas e o tirano fratricida
que simbolizam:
o desgoverno,
os excessos,
a doença psíquica;
é obrigação de Simba tomar deles o poder de reinar.
(Provavelmente uma referência a Hamlet, peça teatral de William Shakespeare)
Pois toda a narrativa simboliza uma única psiquê
o pai e todos os reis do passado estão dentro dele
todo reino está dentro dele
até a deliciosa anarquia de Timão e Pumba, que muito o ensina
tudo está dentro dele
tudo é a realidade que cabe a ele gerenciar
Na sua vida
na sua subjetividade
na sua identidade
em tudo que o a sua consciência toca
apenas você pode determinar o que é real e o que não é.
Você, o que você acha?
Essa reflexão, pra você
é real ou não é real?
3 de setembro de 2025
Saúdo-a
Saúdo a saudade
soldada em mim
que dá direto
a digerir
os tempos idos
poros alados
lá dos de lá
lido de cá
Coautora: Júlie Centeno
14 de agosto de 2025
Lágrimas de Crocodilo
Sei que até pode parecer
que a selva não te respeita
savana já não te ama
você se sente gnu
Sua boca não mais assusta
sua pele não põe respeito
seus olhos não já não são mais os
únicos ditos bonitos
Você não é mais o rei
e nem hiena e nem leão
porque agora toda lei
é para toda criação
Capivara é importante igual a você
O macaco é importante igual a você
e a formiga é importante igual a você
e nem mesmo o elefante patentes vai ter
Mas sua dor
tem seu valor
só não
mais do que as outras
tu'opinião
tem seu colchão
só não
pisar em cima
Crocodilo também vai brilhar ao Sol
crocodilo também vai nadar no rio
só não vai dar mais mordida nem ordem na gente
Crocodilo que anda em pé
que não tem calda nem bocão
nem escamas pontiagudas
nem os olhos com risquinhos
Você também é um ser humano
mas todos precisam ser também
Eu te quero bem
Eu me quero bem
Queremos o bem
de quem...
Tanto sofreu por você
morreu mordido de raiva
a raiva desses bichos tem que vazar
até que não precise mais vazar
falar o que nunca pôde falar
e então...
Ajuda'a gente a curar essa galera
pra trazer justiça pra toda a Terra
e então começar logo a nova era
sem punição
sem privilégio
separação
ou sacrilégio
só amor cuidado e carinho
e todo o mundo é um só ninho
ninguém mais vai 'tar sozinho
na família
global
é real
mas eu sei que dói
deixar de ser
o rei que destrói
o outro ser
Eu prometo
que vai ser
bem melhor que foi
Eu prometo
que vai ser
bem melhor que é
Meu amado
tão divino
tão sofrido
Jacaré
— Sei como é, seu jacaré
8 de agosto de 2025
Eis que não cimento
Uma parte
partida
de mim
só quer dizer: